sábado, 16 de fevereiro de 2013

Síndrome do intestino irritável

Síndrome do intestino irritável: Um diagnóstico fácil, um tratamento difícil


A síndrome do intestino irritável é uma patologia do foro funcional gastrointestinal que afecta entre 10 a 20 por cento da população e os sintomas mais frequentes são a queixa de dor ou desconforto abdominal, associado a alteração da defecação ou do trânsito intestinal.


A Síndrome do intestino irritável (SII) tem um impacte significativo na qualidade de vida do doente, ao motivar consultas médicas frequentes (cerca de 28 por cento das consultas de Gastrenterologia e de 12 por cento de Clínica Geral), absentismo ao trabalho e à escola e custos elevados para a saúde.
A sintomatologia do paciente resulta de alterações funcionais do intestino, que envolvem não só a motilidade como a sensibilidade visceral. Em suma, existe uma disfunção motora e sensitiva. Dada a inexistência de marcadores fisiológicos ou bioquímicos patognomónicos da doença, o diagnóstico assenta na clínica; para as outras doenças funcionais gastrointestinais, recorremos aos critérios de ROMA. Na ausência de sinais e sintomas de alarme (idade superior a 50 anos, rectorragias, emagrecimento, sintomas nocturnos, febre, história familiar de doença inflamatória intestinal, pólipos do cólon ou cancro colorrectal) é seguro efectuar o diagnóstico de SII com base nos critérios de ROMA. Porque o quadro clínico é variável, a terapêutica deve ser personalizada e dirigida aos sintomas dos doentes. Em todos os casos, é fundamental uma relação médico/doente sólida, de empatia e confiança. O paciente com SII é muitas vezes ansioso, ávido em conhecer todas as vertentes da doença, preocupado com a possibilidade de ter cancro. Há que incentivar o doente a modificar o seu estilo de vida, reduzindo o stress diário, que assume em muitos pacientes um papel fulcral no desencadear das crises; o stress aumenta as contracções do cólon e os doentes com SII têm ainda uma maior susceptibilidade, maior reactividade ao stress físico e psicológico.


Tratamentos indicados


A diarreia pode ser controlada com loperamida, colestiramina (eficaz sobretudo em doentes colecistectomizados ou com má absorção de ácidos biliares) e os probióticos podem também ser benéficos.
Nos doentes com obstipação é fundamental o reforço hídrico e a ingestão de fibras; numa segunda fase, recorre-se aos laxantes osmóticos, reservando-se os laxantes de contacto para situações de obstipação grave ou refractária.
No alívio da dor e distensão abdominal, os antiespasmódicos (mebeverina, brometo de octilonio, brometo de pinavério, trimebutina, butilescopolamina) têm eficácia superior ao placebo, actuando como anticolinérgicos ou como relaxantes do músculo liso intestinal. Os anticolinérgicos, como a butilescopolamina, devem ser desencorajados pelos efeitos secundários; entre os relaxantes do músculo liso destaca-se, pelo seu original mecanismo de acção e acção selectiva sobre o cólon, o brometo de otilónio que, para além de reduzir a disponibilidade de cálcio na célula muscular lisa do cólon, necessária à contracção (bloqueando os canais de cálcio tipo L e inibindo a libertação de cálcio do retículo endoplasmático), bloqueia ao mesmo tempo os receptores M3 e antagoniza os receptores NK2 (respectivamente da acetilcolina e das taquiquininas, neurotransmissores excitatórios), interferindo assim com a activação da célula muscular e com a sinalização aferente (através dos receptores NK2) dos neurónios que enviam informação, como dor ou desconforto abdominal, do intestino ao cérebro.
Numa segunda fase, em doentes com grande registo de dor, pode recorrer-se aos antidepressivos tricíclicos, em baixas doses, ou aos inibidores selectivos da recaptação da serotonina (ISRS), pelas suas propriedades neuromoduladoras e analgésicas. O efeito obstipante dos tricíclicos recomenda a sua prescrição nos doentes com diarreia enquanto os ISRS, pela sua acção procinética, são mais vantajosos nos doentes com obstipação.


Um pequeno grupo de doentes (5 por cento) tem doença severa, incapacitante, habitualmente associada a doenças psiquiátricas ou perturbações psicossociais; a resposta à terapêutica médica é insatisfatória, podendo contemplar-se como alternativa um tratamento psicológico (hipnose, psicoterapia, biofeedback, etc.).


Conselhos adicionais


Deve ser promovida a prática de exercício físico; o paciente deve criar hábitos intestinais regulares e cumprir uma dieta regular, fraccionada e de pequeno volume. É também aconselhável que evite o café, álcool, bebidas gaseificadas, adoçantes, gorduras, vegetais formadores de gases (couves em geral, brócolos, ervilhas, grão, feijão, favas, grelos). Porque em até 40 por cento dos doentes coexiste intolerância à lactose, sugere-se leite com baixo teor de lactose, iogurtes (têm fermentos que digerem parcialmente a lactose); evitar gelados, bolos, chocolate, alimentos congelados, comida instantânea, enlatados, molhos comerciais e cuidado especial nos medicamentos (cerca de 20 por cento contém lactose).

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